Poemas VAQUEIROS HERÓIS LENDÁRIOS E REAIS

VAQUEIROS HERÓIS LENDÁRIOS E REAIS

A atividade de pastorear gado, tão diversa de região para
região do Brasil, criou um número incalculável de personagens que
passaram para a literatura, a história e o imaginário popular. No Sul,
nasceu a lenda do Negrinho do Pastoreio, um menino negro escravo
torturado por seu dono e que, dado como morto surgiu risonho, montando
o cavalo extraviado que fora o motivo do seu martírio. Desde então,
diz a lenda, é visto vagando em seu cavalo e desaparecendo nos pampas.
Até hoje é invocado quando alguém quer encontrar algo perdido. No
Nordeste a tragédia foi real e seu principal personagem passou a ser
cultuado como mártir. É a história de Raimundo Jacó, vaqueiro
responsável pela guardo do rebanho do patrão.
Ele trabalhava na mesma fazenda que Miguel Lopes, que
cuidava dos animais da patroa. Mas uma inveja danada os apartava: Jacó
era o melhor vaqueiro das vizinhanças; era capaz de adivinhar onde se
escondia cada cabeça de gado.
Certo dia, os dois homens partiram à procura de uma rês
extraviada, da patroa. Quando Miguel avistou o animal, percebeu que
Jacó já o havia laçado e estava pitando tranquilamente, sentado à
beira do açude do sítio Lajes. Miguel não se conteve e, cheio de
inveja, matou Raimundo com uma pedra.
O vaqueiro foi sepultado ali mesmo onde foi agredido – no
município de Serrita, Pernambuco. Quanto a Miguel, foi processado,
mas, por falta de provas, livrou-se da cadeia. Desde então – 8 de
julho de 1954 -, o nome de Raimundo Jacó impõe respeito na caatinga.
Com o tempo, o misticismo religioso do homem da terra
transformou o local da tragédia em ponto de romaria. E se diz que
muitas graças foram alcançadas por causa do vaqueiro mártir.
Em 1971, o fervor religioso nordestino fez celebrar em
Serrita, pleno alto sertão do Araripe, a primeira Missa do Vaqueiro,
em homenagem a Raimundo Jacó. Da iniciativa participaram o padre João
Câncio, o cantor e compositor Luís Gonzaga – Rei do Baião e primo do
vaqueiro morto - e o poeta e repentista do Cariri, Pedro Bandeira.
Dois anos depois, ergueu-se a estátua de Jacó no município
pernambucano. Em 1974, foi criado o Parque Nacional do Vaqueiro. Hoje,
a Missa do Vaqueiro atrai sertanejos e boiadeiros de todo o país e
representa o segundo maior evento turístico de Pernambuco.
Uma semana antes da celebração da missa, Serrita já
transpira folclore: bandas de pífanos, repentistas, aboiadores,
zabumbeiros e sanfoneiros se revezam nas cantorias – forró pé-deserra,
baião, xote, xaxado, ciranda e coco – em meio a uma profusão de
feiras de artesanato e comidas tradicionais.
Para a celebração, os vaqueiros chegam montados a cavalo e
vestidos a caráter - gibão, botas, colete e chapéu de couro enfeitado.
Sobem no altar de pedra rústica em forma de ferradura e fazem suas
oferendas: peças de couro, arreios, instrumentos usados no pastoreio
do gado. Também improvisam versos de aboio a cada peça ofertada. Com
esse ritual ele não reverenciam apenas Raimundo Jacó, mas todos os
vaqueiros de fibra do Nordeste, que desafiam a caatinga, a seca e a
fome.

FONTE DE INSPIRAÇÃO
Nessa porção do Brasil, a miscigenação dentre brancos e
índios deu origem a alguns tipos populares característicos – o beato,
o cangaceiro, o jagunço - , apegados às tradições, à religião e ao
sentimento de honra.
Os cangaceiros, que viviam perambulando pela caatinga e
agiam por conta própria ou em bando, já não existem mais, a não ser na
história e nas lendas. O jagunço, que trabalha preferencialmente
sozinho, dando proteção a um coronel ou a quem tenha uma dívida de
hora, é uma figura em extinção. Quanto ao vaqueiro, de natureza fiel,
cuida das terras e dos animais do fazendeiro dos sertões, que, por sua
vez, vive longe de suas propriedades.
Este universo sempre inspirou a arte, a começar pela
própria singularidade do homem sertanejo, que só sobrevive porque é
“antes de tudo, um forte”, na célebre definição de Euclides da Cunha
em OS SERTÕES (1902). A perfeita simbiose entre o boiadeiro e a
caatinga também foi fonte de inspiração: assim como o mandacaru ou o
xiquexique, ele nasceu para viver no sertão. Sua pele curtida, suas
feições, sua lama, expressam a própria adversidade do solo e do clima.
Desidratado como a flora que ele conhece, vive dia por dia sorvendo o
suplício da seca.
Esta contradição visceral se expressa numa relação de bemquerência
com a natureza, apesar das dificuldades que ela impõe.
“[...] É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo [...] é
o homem permanentemente fatigado [...] Entretanto, toda essa aparência
do cansaço ilude (...) No revés o homem transfigura-se. [...] e da
figura vulgar do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto
dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento
surpreendente de força e agilidade extraordinárias”, escreveu Euclides
da Cunha em Os Sertões.

VERSOS-RETRATO
A música que vem do Nordeste também retrata com força as
peculiaridades do sertão. Muitas vezes, é um longo lamento diante da
estiagem e do desaparecimento da vegetação: “Se não vier do céu a
chuva que nos acuda, macambira morre, xiquexique seca, juriti se
muda”(Meu Cariri – Rosil Cavalcanti); “Quando a lama virou pedra e
mandacaru secou; quando ribaçã de sede bateu asas e voou” (Paraíba –
Humberto Teixeira/Luís Gonzaga). Outras vezes, é da desfolhação que
lembram os versos das cantigas regionais, como em Maria Fulô, de
Teixeira e Sivuca: “Adeus Maria Fulo, marmeleiro amarelou / Adeus
Maria Fulô marmeleiro amarelou / Adeus Maria Fulô, olhod’água
esturricou”.
Além destas manifestações, o universo dos vaqueiros gerou
as chamadas vaquejadas – brincadeira surgida na época em que o gado
ainda não era criado em currais e era preciso sair em busca das reses
para ferrá-las, castrá-las, tratá-las e dividi-las. A esta festa se
dava o nome de apartação, ou separação do gado.
A vaquejada é exemplo da cultura da valentia e da honra
entre os nordestinos. E foi justamente no Rio Grande do Norte onde
primeiro se praticou o esporte. Feito o reparte dos animas, dá-se
início à competição, durante a qual os vaqueiros mais jovens ou mais
valentes têm de sair em disparada e derrubar os bois, puxando-os pela
cauda. Quem não consegue desequilibrar a rês, é efusivamente vaiado
pelo público.
( MATÉRIA RETIRADA DA REVISTA “ o melhor do Globo Rural” DE MAIO/2005
EDIÇÃO COM DVD)

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